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   Todos juntos pela retomada da construção

Líderes da indústria lançam plano para reduzir o déficit habitacional, num esforço para garantir a reação da economia e do emprego no Brasil

Comprar ou construir a casa própria foi durante décadas o maior sonho do brasileiro. Depois dos últimos anos de recessão, este sonho histórico está mudando. Uma pesquisa recente mostrou que muitas pessoas já desistiram desse objetivo e agora desejam simplesmente pagar suas dívidas mais imediatas.

Ao mesmo tempo em que estão abandonando o velho sonho, os brasileiros sofrem com o aumento dos níveis de desemprego e do chamado déficit habitacional, ou seja, a falta de imóveis disponíveis no mercado para suprir uma das necessidades mais básicas de todo cidadão – ter um teto para morar.

Apenas na última década esse déficit cresceu mais de 30%, saltando dos 5.0 milhões de unidades habitacionais faltantes em 1990 para 6.6 milhões no ano 2000. Isso se refletiu no mercado da construção civil, que registrou números bastante negativos nos últimos oito anos. Enquanto a população brasileira cresceu 14% neste período, a riqueza do País medida pelo Produto Interno Bruto (PIB) subiu somente 2,8%, e as vendas no varejo de materiais de construção registraram resultado ainda pior, caindo 0,8%.

Mas o que aconteceria se as obras destinadas à habitação fossem retomadas em todo o País de forma maciça e consistente? Milhões de novos empregos seriam criados, mais brasileiros teriam condições de realizar o sonho da casa própria, mais unidades habitacionais seriam construídas e a economia brasileira ganharia impulso decisivo para deixar para trás, de uma vez por todas, os tempos “bicudos”.

É esse o jogo que está prestes a ter o seu placar invertido. O setor da construção está se unindo para transformar o que hoje é uma derrota por goleada numa virada histórica e vibrante.

Tudo começou há algumas semanas, quando 21 empresas líderes da área, entre elas a Pirelli, mobilizaram-se para buscar juntas uma saída para o cenário de estagnação que vem dominando o mercado. Convocada por elas, a consultoria Booz Allen Hamilton produziu um estudo profundo sobre a habitação no Brasil. O objetivo era identificar os principais problemas que afligem este mercado, propor medidas para superar esses problemas e projetar os resultados gerais dessas ações.

Previsões animadoras

Solidamente embasado em dados estatísticos, o documento apresenta conclusões animadoras e até surpreendentes. Por exemplo, se as soluções sugeridas forem seguidas à risca pelos agentes que influenciam este setor (que são a indústria e o comércio de materiais de construção, as instituições financeiras públicas e privadas e o governo), estima-se que nada menos do que 2 milhões de novas unidades habitacionais poderão ser construídas nos próximos cinco anos.

Com isso, também estima-se que no mesmo período 1,5 milhão de novos empregos diretos e mais 4 milhões de novos postos de trabalho indiretos poderão ser criados no setor da construção civil – que hoje já emprega sozinho 5 milhões de pessoas, movimentando R$ 75 bilhões por ano (ver gráficos 1 e 2).

O negócio da construção é fundamental para a economia brasileira. Além de gerar empregos, ele é capaz de melhorar as condições de vida da população, ao reduzir a defasagem habitacional e promover o bem-estar das comunidades por meio do desenvolvimento econômico e social. Se somarmos a cadeia da construção e o setor imobiliário, estamos falando de 23% do pessoal ocupado, ou 14 milhões de empregos. Para cada 100 empregos diretos, mais 285 postos de trabalho indiretos são imediatamente gerados no chamado Construbusiness.

Como a construção é uma das atividades com maior capacidade para absorver inclusive trabalhadores de menor qualificação, isso significa que os empregos gerados também vão contribuir para a inclusão social.

É por tudo isso que o plano, intitulado “Construção Habitacional como Alavanca de Desenvolvimento Sócio-Econômico”, é tão importante para o futuro deste mercado. Suas alternativas indicam que o segmento tem potencial para iniciar em breve um círculo virtuoso, espécie de quadro positivo onde o maior acesso ao crédito permite o início de novas obras, que por sua vez geram mais empregos, criando mercado para novos investimentos, que reduzem o custo da construção, facilitando novos financiamentos, sendo que esses recursos possibilitam novas obras, e assim sucessivamente.


Modelo de construção auto-gerida localizada em Curitiba (PR)

Entidades de peso como CEBIC, Sinduscon, Secovi, Anamaco e Banco Mundial, além de vários órgãos governamentais, receberam com entusiasmo os resultados desta pesquisa e estão apoiando sua aplicação na prática no mais curto prazo possível. Seus resultados estão servindo como base dos trabalhos tanto do fórum Construbusiness, que aconteceu em novembro organizado pela Fiesp, quanto do próximo Encontro Nacional da Indústria da Construção (ENIC), a ser realizado em outubro de 2004.

“Toda a cadeia da construção está apoiando esta iniciativa, o que revela que o que temos não é apenas mais um estudo, mais sim uma proposta concreta para o setor”, analisa Humberto Duplat Paiva, diretor de mercado geral da Pirelli Energia.

O estudo revelou que há diversos desafios a serem vencidos para a retomada do crescimento no mercado da construção. Mas também há caminhos para superar esses desafios. Por exemplo, sabemos agora que 92% do déficit habitacional estão concentrados em famílias com baixa renda mensal (até 5 salários mínimos).

O que precisa ser mudado

Outra questão que se deve ter em mente é que o mercado hoje é dominado pela construção auto-gerida, que representa 67% do seu total. Estas são obras onde a escolha dos materiais, prazos e etc. são definidos pelo proprietário, e onde a obra é construída para seu próprio uso. O restante das ações são via construtora, obras que ficam a cargo de uma empresa e onde as construções são para fins de comercialização.

Além de serem auto-geridas, no Brasil as construções habitacionais também são na sua maioria auto-financiadas (92% do total). Essas obras são realizadas com recursos do proprietário, economias, cheque especial ou com crédito direto do lojista, sem qualquer tipo de financiamento. Nos últimos anos apenas 1/3 das unidades financiadas pelo Sistema Financeiro da Habitação foram para as classes de renda mais baixa. Os outros 2/3 atenderam as classes média, média alta e alta. Isso mostra que a solução do problema habitacional depende do reconhecimento da importância da construção auto-gerida, considerando a capacidade de pagamento das camadas de renda mais baixa.

Outra barreira para o desenvolvimento do mercado encontra-se nos altos custos da construção. Desperdícios de materiais de 30% em média, baixa produtividade, muito retrabalho e falta de planejamento são os principais motivos dos custos elevados nas obras.

Durante décadas, as soluções tradicionais para a questão foram baseadas somente na ampliação da oferta de imóveis. Mas isso não foi suficiente para equilibrar o déficit habitacional. Assim a população tem buscado soluções por conta própria, e com isso as condições de habitabilidade vêm se deteriorando.

Soluções à vista

Entre as várias alternativas apontadas pelo documento, destacam-se três caminhos: aumentar o acesso ao crédito, reduzir os custos da construção e adequar as políticas habitacionais.

Aumentar o acesso ao crédito - Por meio da ação de ONGs em comunidades previamente definidas, pode-se incentivar o microcrédito. Já existem 121 instituições de microfinanças no Brasil. Juntas, elas são responsáveis por 0,5% do crédito privado nacional. Ampliar o uso do cartão de crédito nos pequenos varejos de materiais de construção é outra alternativa. Atualmente, existem cerca de 39 milhões de cartões emitidos para pessoas físicas, mas seu uso para o financiamento à construção ainda é reduzido. Espera-se que esta ferramenta passe a ser mais empregada para financiar a compra de materiais.

Ao mesmo tempo, a promoção de cooperativas de crédito e de mão-de-obra pode aumentar o poder de barganha para a compra de bens e serviços, trazendo ganhos de escala, redução de custos operacionais, administrativos, etc. O estudo prevê que os proprietários das lojas de materiais de construção poderão liderar o processo de formação de cooperativas de crédito, levando em conta as condições sócio-econômicas de cada região.

Ainda no campo do financiamento, outra idéia é a criação de novos planos de capitalização acelerada, possibilitando às classes de baixa renda opções de investimento com rentabilidade superior à da caderneta de poupança (cerca de 1,8% a.m. contra 0,9% a.m.).

Redução dos custos de construção - Pode ser obtida por meio de campanhas de redução de desperdícios, criação de kits de produtos e outras soluções integradas entre diferentes empresas, e ainda com a capacitação técnica de instaladores, aplicadores e profissionais das revendas.

Adequar as políticas habitacionais - Entre as ações que se esperam do setor público, destacam-se a criação de uma cesta básica de materiais para construção, a intensificação dos programas de controle de qualidade e a redução da burocracia para o crédito. A proposta da indústria prevê a participação do governo como um facilitador.

Bancos consultados durante o estudo informaram que devem investir R$ 17 bilhões nos próximos 5 ou 6 anos no mercado da construção. Se isso se confirmar, poderá ocorrer uma forte expansão da oferta de imóveis novos, com redução nos custos da construção de forma geral e uma ampliação significativa na contratação de mão-de-obra.

Sem dúvida, isso irá fazer com que muitos brasileiros possam finalmente voltar a sonhar com a casa própria.

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