Para não desperdiçar,
fique de olho
nas instalações

Mau dimensionamento, emendas malfeitas, sobretensões, fugas de corrente. Tudo isso pode estar transformando sua instalação elétrica em mais um “vilão” do desperdício de energia. Veja como você pode economizar

Desde que o País passou a enfrentar o grave problema do desabastecimento de energia, muito tem se falado sobre a importância do uso racional dos equipamentos elétricos. Cuidados como trocar lâmpadas por modelos mais econômicos, reduzir o uso de aparelhos que trazem conforto como o microondas e o ar condicionado e diminuir o tempo do banho com chuveiro elétrico passaram a ser o objetivo principal de todos nós.

É verdade que os equipamentos elétricos são de fato o principal foco de consumo (e muitas vezes até de desperdício) de energia. Mas não são o único. Você já parou para pensar que muita energia também pode estar sendo perdida nos mais diversos pontos das instalações elétricas?

A falta de um bom dimensionamento e de bons cuidados de manutenção podem “roubar” grandes quantidades de energia antes mesmo que ela chegue aos pontos de consumo. É importante estar atento a isso pois somente uma instalação adequada e bem conservada, com materiais de boa qualidade e marca, pode garantir segurança, conforto e, principalmente, um consumo racional da energia elétrica.


Correntes de fuga: fique ligado.
Uma causa muito comum de aumento do consumo de energia é a corrente de fuga. Como os vazamentos de água (canos furados, torneiras pingando, etc.), a corrente de fuga também é registrada no medidor, e você acaba pagando por aquilo que não utilizou. A diferença é que as fugas de corrente são mais difíceis de notar que os vazamentos hidráulicos. Assim, esse tipo de problema muitas vezes pode acabar custando bem caro. Além disso, correntes de fuga representam um sério comprometimento da segurança dos usuários e devem ser sanadas assim que detectadas.

As principais causas de corrente de fuga elétrica são: emendas de fios malfeitas ou mal isoladas, fios desencapados ou com isolação desgastada pelo tempo e conexões inadequadas ou malfeitas.

Mas a corrente de fuga pode ser provocada também por aparelhos defeituosos e consertos improvisados, além de erros na instalação – como avarias e danos diversos ou ainda uso de materiais de má qualidade.

Para prevenir as correntes de fuga, faça revisões periódicas na instalação elétrica (com auxílio de profissional legalmente habilitado), buscando eliminar ao máximo estes inconvenientes. É importante rever as instalações, verificando as conexões, emendas e principalmente as ligações das luminárias no teto, que são pontos comuns de correntes de fuga.

Para descobrir se há corrente de fuga em uma instalação, você pode usar o seguinte teste prático: desligue todos os equipamentos da instalação elétrica e retire todos os aparelhos da tomada. Deste modo, com a instalação completamente sem carga, confira se todos os fusíveis (ou disjuntores) estão conectados e verifique o disco do relógio por pelo menos um minuto (procure fazer isso com a marca do disco posicionada para frente). O disco não deve se mover. Se isso acontecer, é sinal de que existe corrente de fuga na instalação.

Depois, para descobrir em qual circuito a perda se encontra, vá desarmando um disjuntor por vez. Aquele que parar o disco ao ser desligado é o responsável pela corrente de fuga. Solicite ajuda de um profissional habilitado para rastrear então esse circuito, verificando primeiro suas emendas e conexões. Infelizmente, nem todos os eletricistas usam técnicas adequadas para fazer emendas. É comum encontrar fios em contato com metais ou outros elementos condutores. Verifique também as pontas dos fios nos quadros de força.


Sinais comuns. Existem alguns sinais que indicam a existência de prováveis correntes de fuga:

Emendas - Verifique o estado das emendas, não só nas tomadas, mas também nas caixas de derivações. Próximo à emenda, a presença de camadas escuras ou de fios com isolação ressecada são sinais de aquecimento excessivo do circuito. Se a emenda foi mal feita, pode estar havendo penetração de umidade, criando ali uma perigosa região de mau contato, podendo até provocar um incêndio.

Isolação - Fios e cabos com isolação ressecada ou trincada indicam que sofreram sobrecarga e que devem ser substituídos. O uso de condutores nestas condições facilita o aparecimento de correntes de fuga e põe em risco a segurança da instalação. Até entrarem em colapso total (curto-circuito), os cabos nestas condições podem ficar durante anos consumindo energia desnecessariamente.

Danos no fio ou cabo - mesmo instalações novas podem ter sofrido danos no momento do puxamento dos cabos nas curvas acentuadas e rebarbas de eletrodutos. Verifique ainda se há dobramentos excessivos, especialmente nos fios rígidos, pois eles expõem a isolação a esforços nem sempre suportáveis.

Conexões nos bornes de interruptores, tomadas, disjuntores e outros dispositivos - quando a isolação do fio próxima aos disjuntores e fusíveis apresenta coloração “desbotada”, isso significa que esse condutor está sofrendo elevação de temperatura em todo o seu comprimento ou nesse trecho. Com a rede desenergizada, verifique esse fio. Se o desgaste for apenas na ponta, corte e refaça este ponto. Se o condutor estiver com a sua maleabilidade natural no restante do seu comprimento, isso significa que há apenas um mau contato nesta conexão. Lembre-se que as verificações devem feitas por um profissional habilitado.

Seção (bitola) do circuito de força - No passado as normas técnicas para instalações de baixa tensão recomendavam a utilização de condutores com bitola de no mínimo 1,5 mm² tanto para as tomadas de uso geral (circuito de força), quanto para os circuitos de iluminação. Desde 1990 a norma NBR 5410 alterou a bitola dos condutores para no mínimo 2,5 mm² no circuito de força. Portanto, tomadas alimentadas por cabos de 1,5 mm² são sinais de que a instalação é antiga ou está fora de norma e pode estar havendo sobrecarga.

Muitos condutores no mesmo eletroduto - Procure evitar que a taxa ideal de ocupação dos eletrodutos seja excedida. Isso costuma acontecer, por exemplo, quando se faz improvisações para aumentar o número de circuitos em uma instalação. Muitos condutores no mesmo eletroduto pioram a dissipação de calor e aumentam o risco de danificar o cabo ou fio no puxamento.

Falta de Dispositivo DR - A corrente de fuga pode estar sendo causada por eletrodomésticos, como uma máquina de lavar, por exemplo. Se a máquina entrar em contato com materiais condutores (pisos ou paredes), ou ainda se estiver com folgas ou em mau estado de conservação, poderá estar perdendo energia.


Os dispositivos DR identificam as fugas de corrente

Dimensionamento econômico. Uma boa providência prevista na norma é o uso de dispositivos DR. O dispositivo DR identifica as correntes de fuga acima de determinados valores e dispara, desenergizando a instalação. Mas vale lembrar que o DR pode impedir o uso de alguns equipamentos que apresentam elevada corrente de fuga em condições normais de uso (por exemplo, certos chuveiros).

Existem testes mais específicos para identificar se a instalação apresenta correntes de fuga, que deverão ser feitos por um profissional habilitado. Em geral, há necessidade do auxílio de um engenheiro eletricista para a detecção de correntes de fuga em instalações de médio e grande porte.

Mas as correntes de fuga não são os únicos pontos de perda de energia nas instalações. Outro problema comum são as instalações elétricas antigas ainda em operação. Quando foram projetadas, elas não previam o grande volume de eletrodomésticos que existe hoje, como lava-louças, lavadoras de roupas, freezers, aparelhos de ar condicionado, microondas, computadores, impressoras, etc. O resultado é que as instalações mais velhas normalmente não são capazes de suportar estes incrementos de carga.

Nessa situação, a sobrecarga no circuito pode levar a duas conseqüências: o superaquecimento dos condutores e a queda de tensão elevada. Por exemplo: se os cabos deveriam estar operando com temperaturas máximas em torno de 70°C e acabam trabalhando a 80ºC, sua vida útil será reduzida. Já quando ocorre a queda de tensão por sobrecarga ou dimensionamento inadequado, outro erro comum é a troca de lâmpadas por outras mais potentes para se obter mais luminosidade. Na tentativa de corrigir um problema que não está sendo causado pela lâmpada, mas sim pela sobrecarga do circuito, o usuário acaba “puxando” mais carga, ou seja, consumindo mais energia do que o necessário. Tudo isso pode acontecer numa instalação antiga e sobrecarregada.

O melhor nesse caso é fazer o redimensionamento da instalação, com a ajuda de um profissional habilitado. Convém aproveitar esse momento para aplicar o chamado dimensionamento econômico – que não significa comprar os materiais mais baratos, mas sim avaliar com cuidado suas necessidades para obter o melhor retorno possível deste investimento.

Lembre-se que o dimensionamento correto dos fios é fundamental para a segurança da instalação e para o desempenho econômico dos equipamentos elétricos.

Outro mau costume que pode levar ao desperdício de energia nas instalações elétricas é o uso de cabos e acessórios de baixa qualidade.

Condutores de boa qualidade são fabricados com cobre eletrolítico de primeira fusão, metal que tem alto grau de pureza e apresenta baixa resistência elétrica, ou maior capacidade de condução de corrente. Os bons condutores também apresentam PVC de alta qualidade na isolação, que evitam perdas e reduzem ao máximo as possibilidades de corrente de fuga na rede.

Ao contrário, os condutores de segunda linha normalmente apresentam cobre refundido ou ligas de cobre não adequadas para esse fim. Ao serem instalados, eles elevam a resistência elétrica do circuito, aumentando a temperatura no condutor e causando perdas elétricas e o envelhecimento precoce da instalação. Normalmente esses cabos utilizam compostos plásticos comuns, que até oferecem uma certa isolação inicial, mas esta diminui rapidamente com o passar do tempo, levando à formação de trincas e às conseqüentes correntes de fuga.

Disso se conclui que não devemos adquirir materiais simplesmente considerados “adequados” – mas sim aqueles que tenham o respaldo de uma marca reconhecida. Dê preferência aos condutores que, além de terem sido fabricados com técnicas modernas de produção, também apresentem componentes de primeira qualidade. Só assim você poderá garantir que sua instalação terá um desempenho econômico ao longo de toda a sua vida útil.

Vale ainda lembrar que, por força de lei, nas instalações elétricas de baixa tensão somente devem ser utilizados condutores com a MARCA DE CONFORMIDADE do INMETRO.

Outros cuidados. Desligue o disjuntor ou a chave geral antes de fazer qualquer reparo na instalação. Sempre que encontrar fios desencapados, velhos ou defeituosos, troque-os sem demora. As emendas de fios devem ser bem feitas, para evitar que se aqueçam ou se soltem, provocando acidentes. Depois de emendá-los, proteja-os com as fitas isolantes Pirelli, que são próprias para fios. Não use fitas “durex”, fitas crepe, esparadrapos ou outros adesivos.


As fitas isolantes são as únicas adequadas para fazer emendas nos fios e cabos elétricos. Só com elas é possível garantir que não haverá perda de energia nesses pontos

Ao adquirir um eletrodoméstico, verifique, além da voltagem, sua potência, que deve estar mencionada na placa de identificação fixada no próprio aparelho ou no manual de instruções. Quanto maior for a potência do aparelho, maior será o consumo de energia elétrica.

Outro cuidado válido: sempre que fizer uma instalação nova, ou manutenção, volte a apertar as conexões do quadro após 90 dias de uso. Você vai ficar surpreso com as voltas que dará na chave de fenda. Isso acontece porque, com a passagem da corrente, há o aquecimento da conexão com o condutor, provocando mau contato ali. Esse cuidado ajuda a evitar a degeneração das conexões, que poderiam vir a ser um foco de perda de energia no futuro.

De qualquer forma, independentemente do racionamento é sempre importante ficar atento para manter sua instalação elétrica adequada e eficaz.

A crise energética está nos oferecendo a oportunidade de rever costumes e de dar mais atenção às instalações. O custo de um sistema elétrico novo é pequeno diante dos benefícios que ele pode trazer em termos de economia, conforto, segurança e uso mais adequado dos equipamentos que já temos.

Evitando improvisações que são inseguras, estaremos também fechando a porta para as perdas de energia. Em outras palavras, o futuro deverá ter mais economia, e também menos choques nas máquinas de lavar, na torneira da pia e no chuveiro. Uma boa troca, não é mesmo?

Equipamentos: potência ou consumo?

Quantas vezes você já ouviu a seguinte pergunta: “Quanto este aparelho consome?” E alguém responder: “500 W”. Acontece que esta resposta não está correta, pois apenas informa a potência do aparelho, que, dependendo do tempo em que ficar ligado (em funcionamento) irá então consumir uma determinada energia da rede.

Portanto, não se deve dizer que determinado aparelho consome 500 W e sim que ele tem uma potência (elétrica) de 500 W.

Já o consumo é a quantidade de energia elétrica entregue e medida pelo concessionário, num determinado período.

É importante compreender os conceitos de consumo, energia e potência, para não fazer considerações erradas. Muita gente diz que o chuveiro elétrico é o “vilão” da crise energética porque o equipamento “consome muito”, quando o correto é dizer que ele tem uma potência elevada
(4.400 W, por exemplo).

Para ajudar o País no racionamento, procure ligar os equipamentos mais potentes preferencialmente fora do chamado “horário de pico”, período em que o sistema elétrico brasileiro está mais carregado (entre 17h00 e 20h00).

Colaborou: Paulo Barreto, engenheiro eletricista e consultor, diretor da Barreto Engenharia Ltda.


Clique aqui e confira mais dicas para
economizar energia elétrica!